Por Bess Chosak, voluntária do Hospice East Bay
Meu primeiro vislumbre da minha nova paciente foi o de uma pequena senhora franzina — uma coroa de cabelos brancos como a neve despontando por baixo de um cobertor cinza macio que a envolvia enquanto ela se aconchegava em um canto do sofá. Minha missão era levar “música e memórias” para essa mulher de 103 anos que estava sob cuidados paliativos. Tudo o que eu sabia era que ela tinha algum grau de demência e não falava quase nada.
Após uma breve apresentação feita por sua cuidadora residente, sentei-me ao lado dela e abri minha pequena bolsa com os equipamentos — dois fones de ouvido e um iPod com músicas para ela. Ela me olhou com curiosidade enquanto eu tentava explicar o que estava trazendo. Assim que ajustamos os fones e ligamos a música, ela começou a sorrir e a se embalar ao som de “The Tender Trap”, de Frank Sinatra. Logo depois, ouvimos o início de “Que Sera, Sera”, de Doris Day. Nesse momento, seu rosto se iluminou com um lindo sorriso, e quando o refrão começou, ela começou a cantar e eu a acompanhei. Nós duas cantamos em voz alta os velhos e conhecidos versos: “Que será, será; o que tiver que ser, será; o futuro não nos pertence; que será, será.”
Fiquei impressionada com a beleza da sua voz ao cantar — realmente extraordinária. Sua cuidadora, que a acompanhava há onze anos e havia se recolhido ao quarto ao lado, entrou correndo para ver quem cantava daquele jeito. Olhei para ela com espanto, e depois voltei a olhar para minha paciente — nós três estávamos com lágrimas nos olhos. Ali estava algo que aquela querida senhora conseguia expressar, sem hesitação, sem confusão.
Continuei tocando músicas da playlist — de Nat King Cole, Frank Sinatra, da Orquestra de Glenn Miller — mas sempre voltava à música da Doris Day, e a cada vez minha paciente cantava alto e claro quando chegava o refrão. Não pude deixar de refletir sobre o significado daquela música — que estávamos ali, naquele momento, juntas, numa expressão de aceitação do que quer que fosse. Eu sabia muito pouco sobre essa pessoa. Ela não sabia nada sobre mim, exceto que eu era do Hospice East Bay. Mas juntas, a música nos levou a um lugar de genuína companhia e prazer.
Após 30 minutos, chegou a hora do almoço dela. Eu disse que voltaria, e ela segurou meu braço com força e disse, com os olhos e a voz: "SIM!"
A magia da música, as partes da nossa mente tocadas e receptivas à música, parecem superar a névoa da "degeneração cerebral", que é o diagnóstico dela. Espero encontrar mais momentos como este com ela em visitas futuras.
